Dois estudos recentes que dialogam diretamente com esta unidade curricular: um com futuros professores, outro numa escola artística de Lisboa. Os resumos são paráfrases dos artigos, que têm acesso aberto.
Estudo em destaque · 2026
Zlata Tomljenović (2026)
Designing Visual Arts Education for Sustainability: An Arts-Based Approach to Fostering Ecological Awareness in Pre-Service Teachers — Sustainability, 18(6), 3131. Ler o artigo
Porque interessa: Estuda exatamente o nosso contexto: futuros professores a trabalhar arte e sustentabilidade em unidades curriculares de artes visuais.
Contexto
Um ano letivo (2022/2023), duas unidades curriculares de artes visuais, 69 estudantes do 2.º e 3.º anos de um curso de formação de professores. Estudo qualitativo e interpretativo, conduzido pela própria docente das unidades curriculares.
O que fizeram
Escolheram obras de quatro artistas contemporâneos croatas (pintura, escultura, instalação), selecionadas por suscitarem reflexão ecológica sem recorrer a mensagens ambientais explícitas.
As aulas começavam pela observação coletiva e por perguntas abertas; seguiam-se notas de reflexão, desenho associativo, role-play (adotar pontos de vista não humanos ou alternativos) e pequenos projetos artísticos.
As ideias da turma eram resumidas no quadro e retomadas em reflexões escritas curtas.
A análise cruzou reflexões escritas, notas de campo das discussões e os trabalhos visuais dos estudantes.
O que concluíram
O contacto com arte contemporânea ajudou a desenvolver literacia ecológica, nas dimensões experiencial, afetiva, reflexiva e relacional.
Os estudantes passaram a descrever os problemas ecológicos como situações em que já estão implicados, e não como algo exterior.
A ambiguidade das obras foi associada à incerteza dos próprios desafios da sustentabilidade — e tornou-se produtiva para pensar.
Os estudantes referiram mais confiança para usar as artes visuais com futuros alunos em temas ecológicos.
Ciclo da literacia ecológica através das artes visuais (adaptado de Tomljenović, 2026).
Trabalhos de futuros professores: desenhos a tinta e colagens sobre vulnerabilidade, poluição e tensão entre natureza e indústria (Tomljenović, 2026, Figura 3)Tomljenović, Z. (2026), Sustainability · CC BY 4.0
As obras usadas no estudo
Artista
Foco artístico
Emoções nos estudantes
Temas de sustentabilidade
Sebastijan Dračić
Pintura de paisagem; densidade e acumulação
Peso, persistência, tensão, exaustão
Crítica da acumulação e do crescimento insustentável; o tempo longo da mudança ambiental
Kristian Kožul
Assemblage, ironia, objetos híbridos
Absurdo, desconforto, ambivalência
Consciência crítica da cultura de consumo; fronteiras artificiais entre natureza e cultura
Bojan Šumonja
Paisagem, memória, crítica sociopolítica
Perda, alienação, inquietação
A degradação ambiental como questão ética e política; responsabilidade e justiça
Ivana Franke
Luz, perceção, instalação e experiência do espaço
Fragilidade, vulnerabilidade, atenção
Interdependência entre perceção humana e ambiente; fragilidade ecológica
Síntese traduzida da Tabela 2 do artigo. As obras não estão reproduzidas aqui; podem procurar-se pelo nome dos artistas.
Para a nossa unidade curricular
Confirma a sequência que usamos: obra → diálogo → criação → reflexão.
Uma obra não precisa de uma mensagem ambiental explícita para fazer pensar: obras ambíguas abrem mais diálogo do que cartazes com «a» resposta.
O role-play (pensar como um animal, uma árvore, um rio) é uma estratégia simples para transpor para o 1.º ciclo.
As assemblages irónicas de Kožul dialogam com o que vimos em Bordalo II e Nevelson; as instalações de luz de Franke, com Nancy Holt.
A reflexão escrita e o trabalho visual são evidências de aprendizagem — tal como o portefólio.
Para pensar: Em que momento da nossa aula se viveu cada fase do ciclo (obra, diálogo, criação, resposta afetiva)?
Limitações do estudo
Estudo qualitativo num só contexto institucional, com um grupo pequeno: os resultados não se generalizam.
A seleção de obras não esgota as abordagens artísticas possíveis.
A autora era também a docente das unidades curriculares, o que pode ter influenciado a participação.
Não houve medição sistemática do impacto nos comportamentos.
Estudo em destaque · 2019
Julia Bentz e Karen O’Brien (2019)
ART FOR CHANGE: Transformative learning and youth empowerment in a changing climate — Elementa: Science of the Anthropocene, 7, 52. Ler o artigo
Porque interessa: É um estudo feito em Portugal, numa escola artística de Lisboa, que liga uma mudança de comportamento real a um projeto artístico.
Contexto
Estudantes de uma escola secundária artística em Lisboa, num projeto de 30 dias com reflexão em grupo, blogue e trabalhos artísticos (cartazes e brochuras).
O que fizeram
Cada estudante escolheu um comportamento sustentável e adotou-o durante 30 dias.
Ao longo da experiência houve momentos regulares de reflexão e discussão em grupo.
Em paralelo, cada estudante desenvolveu um projeto artístico sobre a sua experiência de mudança.
O que concluíram
Uma abordagem de aprendizagem transformadora com arte apoiou o pensamento crítico e a consciência sobre as alterações climáticas.
Os estudantes ganharam novas perspetivas e um sentimento de capacidade de agir (empowerment).
Muitos trabalhos usaram humor e ironia para criticar o consumo e hábitos insustentáveis (cartazes, brochuras).
Alguns estudantes influenciaram familiares e amigos, e mantiveram os novos hábitos depois dos 30 dias.
Um comportamento sustentável durante 30 dias, com reflexão, que dá origem a uma obra (a partir de Bentz e O’Brien, 2019).
Mostra a diferença entre falar de sustentabilidade e vivê-la: a experiência pessoal alimenta a obra.
Os autores lembram que insistir só nos impactos negativos pode gerar desânimo e inação; a esperança construtiva motiva. A arte pode mostrar o problema e também imaginar alternativas.
Pode adaptar-se ao 1.º ciclo: um pequeno compromisso da turma durante uma ou duas semanas, registado em desenho.
Para pensar: Que comportamento sustentável escolheria durante 30 dias? Que obra poderia nascer dessa experiência?
Limitações do estudo
Estudo exploratório, com uma turma de uma escola: não pretende dar uma resposta definitiva sobre o efeito da arte.
O objetivo não era promover mudanças de comportamento a longo prazo, mas explorar o processo de mudança através da experiência, do diálogo e da reflexão.
Outras leituras
Bentz, J. (2020)Learning about climate change in, with and through art. Climatic Change, 162, 1595–1612. ArtigoAprender «na, com e através da arte» abre mais caminhos para pensar as alterações climáticas.
Heras, M., Galafassi, D., Oteros-Rozas, E., Ravera, F., Berraquero-Díaz, L., & Ruiz-Mallén, I. (2021)Realising potentials for arts-based sustainability science. Sustainability Science, 16, 1875–1889. ArtigoO termo «sustentabilidade» é ambíguo e muito usado; a arte pode questioná-lo em vez de o tomar como garantido.
Pavlou, V., & Vella, R. (2023)Art, sustainability and partnerships. International Journal of Education Through Art. ArtigoA educação artística promove reflexividade e a imaginação de realidades alternativas.
Resumos em paráfrase, a partir dos resumos publicados. Antes de citar em trabalhos académicos, ler os artigos originais.